Publicado por: Alice (...e o Espelho Quebrado) | 5 de março de 2009

Memórias

A mulher mais querida, espirituosa, divertida que conheci foi minha tia Gracinha.

E como era cheia de graça, um corpo normal não lhe bastava: era obesa mórbida. Apesar do corpo doente, tinha o espírito sadio, jovem e vibrante: não tinha papas na língua não havia programa que fosse suficientemente de índio que ela não tivesse ânimo para encarar.

Apesar de seu enorme peso, era linda, vaidosa e teve inúmeros amantes. Uma auto estima inquebrantável, uma personalidade voluntariosa, a casa sempre cheia de amigos, risos, festas. Foi assim até o último minuto.

De todos seus sonhos (e eram muitos) poucos se realizaram por causa do seu peso. Isso tornou a operação de redução do estômago o sonho acima de todos os sonhos. O que deveria vir antes de tudo, para facilitar; depois eram as viagens, alguns maridos a mais (já havia sepultado dois) e bajular os bisnetos.

Sonho esse que ela realizou para falecer, feliz, radiante, num infarto fulminante alguns dias após ter alta aos sessenta e dois anos de idade.

O velório, lotado, parecia velório de gente famosa; todos pranteavam a amiga querida, que não tinha preconceitos, a da voz alta, da gargalhada inadequada do flerte e do charme vindo daqueles olhos brilhantes. A que o lema era ‘bastava estar vivo para ser feliz‘.

Não é nem aniversário de falecimento nem nada, porque ela fez a graça de falecer na noite do meu aniversário. Mas uma pessoa tão especial não precisa de datas especiais para ser lembrada, louvada, versada.

Resolvi escrever sobre ela para lembrar que vale a pena viver para realizar seus sonhos. Vale a pena respirar bem fundo e seguir de cabeça erguida, mesmo quando tudo parece afundar. E quando afundar, querida, se agarre numa tábua e dê braçadas até chegar na margem. E depois, agradeça por estar viva. Por sentir o sol na pele, por poder sorrir, por ter o motivo mínimo de dar a volta por cima, por ser melhor, para ser melhor.

Se ela, MUITO acima do peso, conseguia ser coquete e paquerar, flertar, dar mole ou dar em cima de qualquer homem que lhe despertasse o interesse, qual o obstáculo que você julga intransponível?

Seja ardilosa, cara de pau e vá a luta.


Viver é maravilhoso, mas nunca disseram que seria uma tarefa fácil.

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Responses

  1. Uau!!!

    Adorei o texto.

  2. Desculpe, mas terei de fazer “elogios grosseiros”:

    Caralho, Shay, que texto foda! Emocionei, sério. E explico porque.

    Tô eu aqui, com uma idéia na cabeça pra postar no meu blog, resolvi dar uma passeada nos blogs amigos antes de começar a escrever e me deparo com esse texto. Acredite ou não, pretendia escrever justamente sobre como a perda de peso é algo essencial para a concretização de alguns desejos meus, alguns bem antigos, inclusive.

    Aí leio esse texto, que me fez refletir muito. Mas no final, a frase matadora: “Seja ardilosa, cara de pau e vá a luta.” Matou a pau!

    Talvez ainda escreva o meu post como pretendia, mas as idéias mudaram totalmente dentro de mim. *.*


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